Sua alma por 45 mil reais. Janaina Paschoal:
rotina de isolamento pós-impeachment
Coautora do pedido que acabou por afastar Dilma Rousseff é chamada de golpista na USP, convive com família petista do marido e diz que vê presidente interino fiel à responsabilidade fiscal.
O convívio com militantes esquerdistas e do PT, contudo, não se restringe ao ambiente acadêmico. A família do marido, com quem tem dois filhos, é petista fervorosa, "de ir para a rua fazer campanha", brinca Janaina. Ela relatou ao site de VEJA, na saída de uma aula na semana passada, que os contraparentes não acreditavam que o impeachment fosse prosperar. Com Dilma afastada, o assunto morreu. "Não conversamos a respeito, eu sempre coloco a família em primeiro plano", garante.
"A vida dela na universidade sempre foi muito sofrida", diz o advogado Roberto Podval, amigo de Janaina e primeiro chefe dela na área jurídica. Defensor do ex-ministro José Dirceu na Operação Lava Jato e contrário ao impeachment baseado nas pedaladas fiscais, Podval observa que em "todos os concursos para titularidade, para avançar na carreira dentro da USP, ela (Janaina) sempre foi preterida". Entre os colegas do corpo docente do Direito da USP, destacam-se petistas notórios, como os juristas Dalmo Dallari, Fábio Comparato e Sérgio Salomão Shecaira, este "desafeto político da professora Janaina", conforme analisa Elival Ramos, professor de Direito Constitucional da universidade e Procurador do Estado de São Paulo.
Desde o afastamento de Dilma Rousseff da Presidência e a consequente - e constitucional - ascensão do vice-presidente Michel Temer (PMDB) ao cargo mais alto do Executivo, Janaina conversa sobre o assunto no ambiente acadêmico apenas com os colegas favoráveis ao impeachment, "que são discretos". Com os contrários, não toca no assunto. A recíproca é verdadeira.
Entre os alunos, por outro lado, a saída da petista do Planalto despertou a ira dos adeptos da fantasiosa teoria do "golpe". No dia seguinte ao afastamento de Dilma pelo Senado, cerca de 15 acadêmicos penduraram ao lado do quadro negro da sala Dino Bueno, onde a professora dá aula às sextas-feiras, um letreiro onde se lia, em letras garrafais vermelhas sobre papel pardo: "golpista". "Golpe ontem e hoje", ataca outro cartaz, este em letras escuras, suspenso sobre a entrada da escadaria que dá acesso às salas de aula.
Houve na universidade até enterro simbólico da Constituição, organizado na quinta-feira passada, com direito a caixão para o "livro sagrado", como carinhosamente a jurista se refere à Carta Magna. "O cheiro de ilegitimidade e de pegar carona no poder é muito grande", protestou a professora de Teoria do Estado da USP Maria Paula Dallari Bucci. "Entendo que a Constituição está mais viva do que em qualquer outro momento, mas o PT é bom de marketing", rebate Janaina.

